Revista da Rede de Enfermagem do Nordeste – Rev. Rene

Versão impressa ISSN 1517-3852

Rev. Rene, Fortaleza, v. 10, n. 1, p. 1-165, jan./mar.2009

 

ARTIGO ORIGINAL

 

 

A escola de auxiliares de enfermagem de Natal e o Hospital Universitário Onofre Lopes *

The nursing school of Natal and the University hHospital Onofre Lopes

Escuela de auxiliares de enfermería de Natal y el Hospital Universitario Onofre Lopes

 


Djailson José Delgado Carlos1; Raimunda Medeiros Germano2

1Enfermeiro do Hospital Universitário Onofre Lopes. Mestre em Enfermagem pela UFRN. Rua Antônio Lopes Chaves, 626 casa 17 – Nova Parnamirim – Parnamirim-RN-Brasil. CEP: 59.150-000. E-mail: djdc_dede@hotmail.com
2Enfermeira. Docente do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFRN (PPGENFUFRN). Doutora em Educação pela UNICAMP. Brasil. E-mail: rgermano@natal.digi.com.br

 

 



Estudo de enfoque histórico e qualitativo, com objetivo de analisar a história da Escola de Enfermagem de Natal e sua relação com o Hospital Universitário Onofre Lopes. A investigação empírica pautou-se no levantamento de documentos: relatórios, atas, cartas, regimentos, estatutos, Leis, Decretos, Portarias e entrevistas com pessoas que dessa história tem vivas memórias. Depreende-se que a inserção da Escola no Hospital transformou lenta e gradativamente o quadro da Enfermagem da instituição, à medida que absorvia os profi ssionais por ela formados. Essa qualifi cação tornou-se mais incisiva quando, após a federalização da Universidade do Rio Grande do Norte, em 1960, a diretora da Escola passou a exercer, também, a direção de Enfermagem do Hospital. Essa dupla função e dupla responsabilidade convergiram e favoreceram a intensifi cação da capacitação dos atendentes em auxiliares e técnicos de Enfermagem.
PALAVRAS-CHAVE: História; Enfermagem; Hospital.


The present study has an historic and qualitative focus with the purpose of documenting the history of the Nursing School of Natal and its relationship with the University Hospital Onofre Lopes. The empirical investigation was based on a review of the following documents: reports, mission statements, letters, regulations, statutes, laws, decrees, testimonies and interviews with people who have a living memory of its history. It postulates that the School at the Hospital slowly and gradually transformed the picture of Nursing at the institution, in so far as it absorbed the professionals it formed. Such qualifi cation became the most incisive when, after the federalization of the University of Rio Grande do Norte, in 1960, the director of the School took on, as well, the direction of the Hospital. This doubled responsibility converged to favor the intensifi cation of training students to become technical assistants in Nursing.
KEYWORDS: History; Nursing; Hospital.


Estudio con enfoque histórico y cualitativo, con el objetivo de analizar la historia de la Escuela de Enfermería de Natal y su relación con el Hospital Universitario Onofre Lopes. La investigación empírica se pautó a partir de documentos como: informes, actas, cartas, reglamentos, estatutos, Leyes, Decretos y entrevistas con personas que tienen claros recuerdos de esa historia. Se deduce que la inserción de la Escuela en el Hospital transformó lenta y progresivamente el equipo de Enfermería de la institución, a medida que incorporaba profesionales capacitados por ella. Esa valoración se acentuó, después que la Universidad do Rio Grande do Norte se tornó órgano federativo, en 1960, y la directora de la Escuela se hizo cargo también de la dirección de la Enfermería del Hospital. Esa dupla función y dupla responsabilidad convergieron y favorecieron la intensifi cación de la capacitación de los ayudantes en auxiliares y técnicos de Enfermería.
PALAVRAS CLAVE: Historia; Enfermería; Hospital.


 

 

Introdução

Havia um desejo expresso em discursos e documentos desde o ano de 1927, de fazer funcionar em Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte (RN), uma escola de enfermeiras e parteiras anexa ao Hospital de Caridade Jovino Barreto (HCJB), hoje Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL). Na época, o sonho não se concretizou pela escassez de recursos humanos e materiais para sua realização(1).

Sobre esta instituição de saúde, quase secular, inaugurada em 1909, faz-se necessário destacar que sua fundação decorreu da necessidade de organizar uma assistência condigna à população. Para tal, uma casa de veraneio, localizada no Monte Petrópolis, foi adaptada com dezoito leitos para o atendimento de pessoas carentes. Administrativamente, encontrava-se subordinado ao Estado por meio da Inspetoria de Higiene e Saúde(2).

Acerca do HCJB, considerando seu crescimento e a reestruturação de seus serviços, convém informar que em 1935 passou a se denominar Hospital Miguel Couto (HMC). No ano 1960, devido à federalização da Universidade do Rio Grande do Norte, recebeu o nome de Hospital das Clínicas (HC) e, em 1984, passou a chamar-se Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), como homenagem ao primeiro reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)(2).

No que diz respeito à fundação da escola anexa ao Hospital, sabe-se que embora esse interesse correspondesse à necessidade de qualifi car os funcionários exercentes da Enfermagem, as difi culdades encontradas eram enormes. Convém citar a inexistência de docentes, prédio próprio, laboratório, recursos didáticos, entre outras, impossibilitando seu funcionamento. Por isso, teve-se que aguardar por anos, até que estas deficiências fossem superadas.

Assim sendo, o desenvolvimento deste estudo justifica-se pelo resgate de uma história ainda não registrada, considerando-se a importância da Escola de Auxiliares de Enfermagem de Natal (EAEN), hoje Escola de Enfermagem de Natal (EEN), por seu pioneirismo. Dessa forma, buscou- se reunir o máximo de informações para que sejam abertas perspectivas para o conhecimento e memória da Enfermagem do RN.

Dessa forma, para a realização da pesquisa foram defi nidos os seguintes objetivos: descrever a evolução histórica da Enfermagem do HUOL; analisar a história da EEN e sua relação com o HUOL.

Metodologia

Este estudo de enfoque histórico utilizou-se da abordagem qualitativa para que permitisse buscar as raízes dos signifi cados, das causas, extrapolando a visão superfi - cial, ou seja, favorecendo o aprofundamento da realidade, visto que possibilita a análise do subjetivo e do objetivo, os atores sociais, os fatos e seus significados(3).

A pesquisa histórica relaciona-se a motivações distintas e surge através de consultas às diversas fontes, sejam elas primárias ou secundárias, a partir das quais são estabelecidas novas conexões e comparações dos fatos estudados que resultam em um novo conhecimento(4).

As fontes devem ser vistas como a via pela qual o pesquisador entra diretamente em contato com o problema, possibilitando-lhe examinar e analisar uma sociedade em seu tempo, contribuindo na recuperação da memória que ajuda a salvar o passado para servir ao presente e ao futuro(5,6). Assim sendo, adotou-se como critério para esta investigação, a reconstrução da história a partir de uma cronologia dos acontecimentos.

No que tange à coleta de dados, realizada entre os meses de fevereiro e março de 2005, foram previamente solicitadas autorizações ao Arquivo Geral do Estado, à Direção do HUOL e à EEN. Também foram levantadas referências bibliográficas pertinentes à história do HUOL e estudos acadêmicos relacionados à Enfermagem do RN.

Estes dados foram complementados por meio da realização de entrevistas, no período de maio a junho de 2005, adotando-se como critério de participação no estudo profi ssionais que mantiveram vínculos com a EEN e o HUOL, entre as décadas de 1950-60, ou seja, aqueles que viveram essa história e que dela têm vivas memórias. Também foram entrevistados alguns dirigentes da atualidade.

Portanto, deve-se dizer que a história da EEN e sua relação com o HUOL, objeto dessa pesquisa, para ser construída contou com aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFRN, conforme Parecer nº 81/2004.

Resultados e discussão

À época da fundação do HCJB (1909), a cidade de Natal, capital do RN, encontrava-se em um lento processo de urbanização. Sua população era de aproximadamente trinta e um mil habitantes e em função da deficiente infraestrutura rodoferroviária, permanecia praticamente isolada das demais cidades do Estado(2).

Para fazer funcionar esta instituição, o Estado contratou inicialmente um médico, sete religiosas Filhas de Sant’Ana para assistência aos enfermos e direção doméstica, um “enfermeiro”, jornaleiro, serventes e criados(2, 7).

A respeito desse “enfermeiro”, José Lucas do Nascimento, popularíssimo, como “doutor” de gente pobre, é descrito como sendo muito dedicado, sempre pronto para o atendimento a qualquer paciente e que chefiava o serviço de Enfermagem nas enfermarias masculinas(8).

Sobre este fato, faz-se necessário esclarecer o caráter essencialmente empírico da Enfermagem da época, visto que o ensino com bases técnico-científi cas, no Brasil, estruturou-se no ano de 1923, na cidade do Rio de Janeiro, com a fundação da Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), atual Escola Anna Nery(9).

No que tange ao RN, essa modalidade de ensino foi institucionalizada em 1955, mas ainda como nível médio, após a autorização para funcionamento da EEN. Assim sendo, mesmo reconhecido profi ssionalmente por suas habilidades e pela qualidade de seus serviços, José Lucas do Nascimento não era portador de nenhuma escolarização formal, ainda que recebesse o título de “enfermeiro”.

Nessa condição, a Enfermagem permaneceu por muitos anos. A primeira iniciativa de criação de uma escola para enfermeiras e parteiras surgiu quando a Sociedade de Assistência Hospitalar (SAH), de caráter beneficente cuja finalidade era a assistência médica e o amparo aos pobres, tornou-se responsável pelo gerenciamento, planejamento e administração do Hospital no ano de 1927(1).

No período que vai de 1935 a 1945, sob a denominação de HMC, vêem-se suas dependências ampliadas e a criação de novos serviços. Quanto à composição da Enfermagem, sabe-se que havia nove irmãs Filhas de Sant’Ana, o “enfermeiro” já citado, duas “enfermeiras” (Generosa de Souza e Maria de Jesus) e duas auxiliares de enfermaria (Joaninha Sales e Francisca Fernandes). Nessa época, a Enfermagem encontrava-se diretamente subordinada à administradora do Hospital, na pessoa da Irmã Superiora Plácida Possi, italiana, auxiliar imediata do diretormédico(2, 7).

Acerca da criação da EEN, ocorrida em 1934, seu funcionamento, pelos motivos já referidos, não se concretizou(10). É importante frisar que o ensino da Enfermagem Moderna no Brasil havia se instalado há pouco mais de duas décadas e que seus egressos, nos primeiros anos, eram absorvidos pelo mercado local, não se deslocando para outras regiões do país.

Apesar disso, a idéia de fazer funcionar uma Escola de Enfermagem passa a ser, cada vez mais, defendida pelos dirigentes da SAH. Assim, em 20 de julho de 1950, às 10 horas, no Salão Nobre do HMC, a Escola é fundada e sua diretoria ficou assim constituída: Onofre Lopes (médico – Diretor), Elita Silveira (enfermeira – vice-Diretora) e Irmã Teodolinda Amazonas (secretária). Também foi composto um Conselho Administrativo: Januário Cicco, Ernesto Fonseca, Otávio Varela, João Tinoco, Onofre Lopes (médicos), Nestor dos Santos Lima, Paulo Sobral (advogados), Elita Silveira (enfermeira), e pela religiosa, Irmã Belém(11).

Nessa época, a cidade de Natal apresentava uma população de cento e três mil duzentos e quinze habitantes, sendo 53,86 % mulheres e 46,13 %, homens, dentre os quais 47,80% eram alfabetizados(12). Isto posto, concluise quão precário era o contexto, dificultando, naturalmente, a realização de alguns projetos na área de educação, como, por exemplo, o funcionamento de uma Escola de Enfermagem, embora estivesse oficialmente criada.

A propósito, sobre a enfermeira Elita Silveira, sabe-se que desempenhou suas funções na Maternidade de Natal, hoje Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC), enquanto aguardava o início das atividades da Escola de Enfermagem(7). Ressalva-se que, embora criada e existindo a presença de uma enfermeira diplomada, a direção da Escola ficou a cargo de um médico. Esta decisão contrariava os preceitos da Enfermagem Moderna que defendia e defende a direção das Escolas de Enfermagem a cargo do enfermeiro, orientação esta que persiste até os dias atuais.

Na tentativa de vencer as dificuldades e de fazê-la funcionar, Januário Cicco, médico e Diretor da SAH, continuou insistindo com a idéia e enviou duas cartas, no ano de 1952, às principais autoridades da República.

Em correspondência formal, dirige-se ao Presidente da República, Getúlio Dornelles Vargas. Eis o teor de uma parte de sua correspondência:

“De conformidade com a Lei nº 775, de 06 de agosto de 1949, que regulamenta os níveis de ensino de Enfermagem no Brasil, adverte que nenhum estabelecimento assistencial poderá funcionar sem enfermeiros técnicos, a partir de 1956 (...) venho solicitar a Vossa Senhoria a devida licença para o funcionamento da Escola (...) a nossa Sociedade dispõe de todas as instalações e acomodações necessárias ao curso de Enfermagem (...) o corpo docente é composto de médicos e enfermeira titulada pela Escola Superior do País e o currículo dos seus professores é prova bastante para a segurança do cumprimento das disposições regulamentares.”

Ao Vice-presidente, João Café Filho, amigo e conterrâneo, assim se dirige:

“Sobre este assunto [referindo-se à criação da Escola], informo que a Diretoria de Ensino Superior está criando dificuldades. Agora mesmo um fiscal esteve aqui e já está de posse de novo processo para a habilitação da nossa Sociedade e fazer funcionar a citada Escola. Apegam-se os burocratas a exigências sem nenhum valor, dificultando a criação da Escola quando deveriam cooperar para maior difusão do ensino. Pedi-o para não demorar a remessa dos novos documentos, porque a exigência maior é referente à sede própria, quando é impossível, do dia para a noite, construirmos um edifício. Instalei a Escola no Hospital Miguel Couto, sede provisória, em cujas instalações faremos muito mais do que se obtém nas atuais escolas do Brasil.”

Acerca das iniciativas, pretendia-se, conforme uma enfermeira e ex-Diretora da EEN, criar uma Escola de Enfermagem, mas não havia condições. Veio uma supervisora do Rio de Janeiro, do Ministério da Saúde que elaborou um relatório no qual impossibilitava o funcionamento da Escola aqui em Natal(13).

Sobre esse documento, sabe-se que foi emitido pela enfermeira Izaura Barbosa Lima, com o qual explicitou a precariedade de recursos materiais e técnicos para o funcionamento de um curso de Enfermagem(14).

Ainda que este relatório tenha causado descontentamento entre os dirigentes da SAH, serviu para estudos e observações posteriores que terminaram por sugerirem, junto ao Ministério de Educação e Cultura, autorização para fazer funcionar uma Escola de Auxiliares de Enfermagem. Mesmo não correspondendo aos anseios, a sugestão foi aceita.

E assim, enquanto o propósito de uma Escola de Enfermagem de nível superior não se concretizava, a assistência prestada ao paciente no HCM, permanecia sob os cuidados de leigos e das Irmãs Filhas de Sant’Ana.

A respeito das religiosas, no ano de 1952, havia dezesseis lotadas em serviços diversos, a saber: Albina Vieira (Superiora), Teodolinda Amazonas (secretária), Natália Maia (farmacêutica), Vilma Vila (Pavilhão de Luxo), Delfi na Lorena (Pavilhão de 1ª Classe), Damelina Amaral (Setor de Internamentos), Inez Minelli (Centro Cirúrgico), Donata (Pavilhões de 2ª e 3ª classes), Pierina Albuquerque, Alessia Barbosa, Izaura Rego, Geralda Carvalho (ambas em enfermarias), Miquelina Cassioraghi (Gabinetes de Otorrinolaringologia, Odontologia e Portaria), Emerentina Montenegro (Cozinha), Conceição Busatta (Lavanderia) e Emerenciana Costa (Sala de Costura)(15).

Este quadro demonstra quão efetiva era a participação das irmãs na vida da Instituição e, em particular, no gerenciamento da assistência de Enfermagem. Não se tem referência alguma quanto à existência de enfermeira neste grupo.

Como se vê, no RN, a criação de uma Escola de Enfermagem representou um ideal almejado por muitos anos. No entanto, seu funcionamento só foi possível apósconvênio fi rmado entre a Divisão de Organização Hospitalar (DOH), a Campanha Nacional Contra a Tuberculose (CNCT) e a SAH(16).

Este convênio, assinado em 1955, era renovável a cada dois anos e vigorou logo após sua assinatura. Coube à DOH a contribuição fi nanceira para manutenção da Escola. A CNCT responsabilizou-se pela disponibilização de pessoal (três enfermeiras, uma secretária e dois funcionários para os serviços gerais). Quanto à SAH, teria que dispor as instalações físicas, oferecer internato às alunas, além de toda assistência necessária, como também envio anual de relatório constando das atividades escolares às partes contratantes.

Asseguradas as condições físicas, materiais e de pessoal, a autorização de funcionamento da Escola de Auxiliares de Enfermagem de Natal ocorreu após quase cinco meses(7).

Sobre este acontecimento, revela um médico, professor da Faculdade de Medicina e Diretor do Hospital à época:

Os médicos daquele tempo se preocupavam com a qualidade da assistência. Para eles foi uma coisa muito boa a criação da Escola de Enfermagem (...) para todos nós (...) antes da Escola de Enfermagem era uma tragédia (...). Não se podia viver, continuar daquele jeito. Pessoas sem a menor qualifi cação (...) eram umas amadoras, as que exerciam a Enfermagem eram pessoas amadoras, práticas(17).

Coube à enfermeira Maria de Lourdes Lopes, natural do RN, os trabalhos iniciais. Nesse momento, diferentemente da diretoria constituída em 1950, a direção fi cou a cargo de uma enfermeira. Para tocar os trabalhos iniciais a CNCT cedeu duas enfermeiras diplomadas (Nice Menezes de Oliveira e Geny Carvalho de Oliveira), uma secretária (Carmem Reis Maffi oletti) e duas funcionárias (Maria Lourenço de Freitas e Maria de Lourdes Martins). O grupo de enfermeiras, pioneiras, ficou assim constituído: Maria de Lourdes Lopes, Soror Anna Amasilles Rocha, Nice Menezes de Oliveira e Geny Carvalho de Oliveira(7,14).

Esta Escola, moldada nos princípios da Enfermagem Moderna, seguiu os critérios de seleção das demais instituições congêneres. Funcionava em poucas salas, nas dependências do HCM, precisamente no Pavilhão Santa Isabel. Dispunha de secretaria, diretoria, salas de aula e internato. Cumpria-se também o protocolo de preencher requerimento destinado ao Diretor da SAH solicitando autorização para inscrição no curso(7). As aulas teóricas aconteciam no horário da tarde, das 14 às 17 horas, e os estágios (práticas), pela manhã. As alunas vestiam um uniforme padronizado (vestido com avental, tênis e touca). Tudo financiado pela SAH informou uma aluna da primeira turma(18).

Quanto ao Hospital, no final da década de 1950, no tocante às Filhas de Sant’Ana, o grupo apresentava-se composto por quinze religiosas distribuídas em setores administrativos e assistenciais.

No que diz respeito à EEN, seu quadro docente foi formado pelas enfermeiras Maria de Lourdes Lopes (Diretora), Nice Menezes de Oliveira e Ana Thereza de Jesus Freitas. Além destas, médicos da SAH, entre eles Eudes Moura Caldas, Cleone Noronha, Genibaldo Barros, Hiram Diogo Fernandes, Heriberto Bezerra, Joaquim Luz, Olavo Montenegro, Fernando Fonseca e, pela professora de nutrição Francisca da Silva Rocha(7).

Acerca do processo seletivo, sabe-se que era rigoroso. Sobre esse assunto, veja a seguir o que explicita um ex-aluno, Técnico de Enfermagem do HUOL, hoje aposentado: A Escola de Enfermagem era muito restrita para Natal, não era voltada para a comunidade.

“A seleção era muito rigorosa, mas muito mesmo. Passou muitos anos sem ninguém saber que em Natal existia uma Escola de Auxiliares. A Escola só começou a se expandir a partir do momento que se transferiu daqui do Hospital”(19).

Ainda sobre a seleção, assim se pronunciou um médico e professor colaborador da EEN à época:

“O cuidado que a Direção da Escola tinha era de começar com boa qualidade, com preocupação com a qualidade do ensino. As exigências eram muito grandes para que ela adquirisse credibilidade e as pessoas passassem a acreditar que estava se fazendo ali, um bom trabalho”(17).

No ano de 1959, ocorreram modifi cações no quadro funcional da EEN. Primeiro, a substituição da enfermeira Úrsula Engel por Maria Carmélia de Albuquerque. Depois, o desligamento de Nice Menezes de Oliveira que, após concluir o curso de Direito, optou por exercer a advocacia. Nesse momento a Escola mantinha três enfermeiras (Úrsula Engel, Maria Carmélia de Albuquerque e Ana Thereza de Jesus Rocha) que ministravam aulas e acompanhavam os alunos nos estágios(14).

Naquele mesmo ano, por ocasião dos festejos do cinqüentenário do HMC, diante de uma platéia, no que tange à Escola, assim se pronunciou Onofre Lopes, Diretor do Hospital e Presidente da SAH:

“Está funcionando com regularidade, preparando moças não somente para os nossos serviços hospitalares, mas, para organizações diversas, casas de saúde, postos médicos e ambulatórios em todo o Estado. Temos contato com permanentes dificuldades no provimento de cadeiras, devido à falta de enfermeiras diplomadas. Também decorrente destas circunstâncias, tem havido certo retardamento no reconhecimento da Escola, que, entretanto, já se encontra na última fase no Ministério da Educação e Cultura. Deve ser registrado o trabalho de magnífica colaboração dos professores e alunas nos serviços hospitalares. O Serviço Especial de Saúde Pública continua a prestar valiosa ajuda na manutenção da Escola, fornecendo-nos enfermeiras diplomadas, além de prestimosa atuação noutros aspectos relacionados ao seu funcionamento”(20).

A dificuldade de enfermeiras para lecionar era minimizada com os médicos pertencentes à SAH, denominados de professores colaboradores; eram eles: Ernani Cicco (Noções de Patologias Médicas), Hiram Diogo Fernandes (Noções de Patologias Cirúrgicas), Cleone Noronha (Microbiologia e Doenças Transmissíveis), Leide Morais (Obstetrícia e Ginecologia), Heriberto Bezerra (Pediatria e Puericultura) e Eudes Moura (Ortopedia). Integravamse, também, a este grupo, as professoras Francisca Silva Rocha (nutrição) e Teresinha Soares de Brito. Esta, cedida pela Secretaria Estadual de Educação, era responsável pela formação geral das alunas, ministrando as disciplinas de: Português, Aritmética, Geografi a e História do Brasil. Completavam o quadro de funcionários da Escola a secretária Carmem Reis Maffi oletti e as serventes Maria de Lourdes Martins e Maria Lourenço de Freitas(14).

Passados cinco anos, desde o início de seu funcionamento, faltava à EEN, o reconhecimento por parte do Ministério da Educação e Cultura. Embora tenha sido solicitada em 1957, sua concessão foi por anos aguardada(7).

Em 1961, após o reconhecimento da Escola, ocorrido em 1960, houve a primeira solenidade de entrega de certifi cados, reunindo alunos formados até aquele ano. Sobre esta ocorrência, a seguir nota de um jornal local, datado de 21 de maio.

“Ontem, às 08 horas, na Capela do Hospital Miguel Couto, foi celebrada uma missa em Ação de Graças e às 20 horas, no Salão de Honra da Escola Doméstica de Natal, em seção solene, realizou-se a cerimônia de entrega de certificados aos alunos da Escola de Auxiliares de Enfermagem de Natal. O ato contou com a presença de um representante do Governo do Estado ... teve como patrono o Magnífico Reitor da Universidade do Rio Grande do Norte, Dr. Onofre Lopes e como paraninfo a enfermeira Marina de Andrade Rezende. ... marcou o encerramento das solenidades comemorativas da 22ª Semana Brasileira de Enfermagem ... quarenta e sete diplomadas, das turmas de 1956 a 1960, receberam seus certificados, tendo a auxiliar de Enfermagem, Sebastiana Bezerra de Moura, como oradora da turma”(21).

Coincidentemente, no mesmo ano em que a Escola obtém seu reconhecimento, a Universidade do Rio Grande do Norte é federalizada, passando a se denominar Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)(2).

Esta notícia fora recebida com grande entusiasmo pela SAH. Diante dessa nova situação, o HMC passa a se denominar Hospital das Clínicas (HC) e a administração do Serviço de Enfermagem, até então, sob a responsabilidade das religiosas Filhas de Sant’Ana passa a ser exercida por uma enfermeira. Trata-se da norte-rio-grandense Nazaré Lira, recém-chegada de São Paulo, tendo concluído seu curso de graduação na USP(13).

Veja o que fala uma Auxiliar de Enfermagem, funcionária do Hospital aposentada, a este respeito:

“Com a chegada das enfermeiras na chefi a de Enfermagem, as coisas melhoraram muito. Houve modifi cações na escala ... nós passamos a trabalhar seis horas diárias. O serviço melhorou bastante. Antes as freiras comandavam a parte de Enfermagem, do Hospital, porque não havia enfermeiras”(22).

Essa nova situação repercutiu signifi cativamente na formação dos auxiliares, pois sendo a Diretora da Escola a dirigente, ou Chefe do Serviço de Enfermagem do Hospital, como assim se denominava, facilitou o desenvolvimento das atividades nas duas Instituições.

Quanto à saída das religiosas do serviço de Enfermagem, deve-se registrar que estas permaneceram no Hospital por décadas, embora em outros serviços, tais como: portaria, setor de internamentos, copa-cozinha, lavanderia e rouparia, entre outros. Acredita-se que essa decisão institucional provavelmente tenha contribuído para uma transição menos traumática, considerando-se o longo período em que as mesmas estiveram à frente da administração da Enfermagem.

Essa realidade, a federalização da Universidade, impôs uma nova situação à EEN no que diz respeito aos recursos para sua manutenção, visto que sua incorporação à autarquia demandou alguns anos. Durante esse período, a Escola fi cou sob a responsabilidade do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), assim informou uma enfermeira e ex-Diretora em entrevista(13).

A respeito da junção direção da Escola/Hospital, sabe-se que representou um salto de qualidade para ambos, particularmente, para o ensino. Sobre isto, a fala, a seguir, é emblemática:

“Uma das coisas que mais difi cultava o estágio era a pequena aceitação dos alunos por parte dos funcionários. Quando as duas coisas foram assumidas, tudo fluía bem melhor, digo, a aceitação do aluno. A felicidade era essa. Elas, as enfermeiras do Hospital eram responsáveis pela teoria e pela prática. Naquela ocasião, as enfermeiras, quando contratadas pelo Hospital também ministravam aulas na Escola e acompanhavam alunos em campo de estágio”(23).

Percebe-se a partir dos discursos que a federalização da Universidade trouxe grandes desdobramentos para a Enfermagem do HC à medida que abriu espaços para a qualifi cação de seu pessoal, considerando que a equipe de Enfermagem era constituída, até então, na sua grande maioria, por atendentes. Conforme uma enfermeira do Hospital e ex- Diretora da EEN na década de 1970:

“A partir do momento no qual a enfermeira Diretora da Escola de Auxiliares passa a exercer a chefi a de Enfermagem do Hospital, há uma concentração de poder ... essa situação favoreceu o processo de capacitação dos atendentes de Enfermagem desta Instituição”(23).

Revendo a situação da Enfermagem do Hospital, pode-se afi rmar que em muito se diferenciou daquela dos primórdios do HCJB. A formação foi ocorrendo gradativamente e o funcionamento da EEN foi decisivo para muitas mudanças.

Outras iniciativas no campo administrativo, como por exemplo, a redução da carga horária dos atendentes de Enfermagem para freqüentarem a Escola, bem como o próprio desenvolvimento técnico-científi coconcorreu para essa nova face da Enfermagem. Deve-se dizer então que até os anos 1960, o corpo de Enfermagem do Hospital era formado, praticamente, por atendentes, tendo ao final da década de 1980, invertido este quadro, ou seja, todo o corpo de Enfermagem constituído por enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem.

Considerações finais

Ao concluir este estudo, torna-se importante registrar que as informações nele contidas foram obtidas por meio de consultas às fontes primárias, secundárias e a trabalhos acadêmicos. Foi imprescindível complementá-las através da realização de entrevistas com quem viveu parte dessa história de grande valor para a memória da Enfermagem do Estado.

Realizá-lo implicou na superação de algumas dificuldades, dentre as quais a precariedade dos serviços de arquivo das instituições. Essa situação se traduz na ausência de catalogação, acondicionamento, conservação e na falta de registros.

Sobre os resultados do estudo propriamente dito, ressalta-se o longo período em que a assistência de Enfermagem do Hospital permaneceu sob a responsabilidade das religiosas Filhas de Sant’ Anna, bem como seu caráter empírico.

Esse perfil foi sendo modifi cado lentamente a partir da autorização e do funcionamento da EEN, em 1955 e 1956, respectivamente, cuja função era o preparo profi ssional para os diversos serviços de saúde.

Sobre o propósito de fazer funcionar a Escola, é importante enfatizar o longo tempo pelo qual teve-se que aguardar para sua realização. As iniciativas estão expressas desde o ano de 1927, por ocasião da criação da SAH, em 1934, com a publicação do Novo Regulamento do HMC e pela fundação e composição de sua diretoria em 1950. Lamentavelmente, em todas estas oportunidades, a falta de recursos impossibilitou sua concretização.

Do ponto de vista do local ocupado pela Escola, vale lembrar que do Pavilhão Santa Isabel, do antigo HMC, onde se instalara inicialmente, foi transferida para o terceiro andar do então denominado HC. Em 1971, transfere-se para a Avenida Nilo Peçanha, nº 619 e no ano de 2004, passa a compor o Complexo de Enfermagem, situado no Campus Universitário da UFRN.

Portanto, a EEN foi transformando lentamente o quadro da Enfermagem do Hospital à medida que absorvia os profissionais por ela formados. Essa qualifi cação tornou-se mais incisiva após a federalização da Universidade do Rio Grande do Norte, em 1960, uma vez que a diretora da Escola passou a exercer, também, a direção de Enfermagem do Hospital. Assim sendo, essa dupla função e dupla responsabilidade convergiram e favoreceram a intensifi cação da capacitação dos exercentes da Enfermagem, cuja importância continua sendo reconhecida na atualidade.

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18. André MLA. Entrevista concedida a Djailson José Delgado Carlos. Natal; 2005 jun. Fita cassete (68 min).

19. Ferreira JF. Entrevista concedida a Djailson José Delgado Carlos. Natal; 2005 maio. Fita cassete (77 min).

20. Sociedade de Assistência Hospitalar. Relatório apresentado pelo Dr Onofre Lopes à Diretoria, referente ao exercício de 1959. Natal: 1959.

21. Tribuna do Norte. Escola de Auxiliares de Enfermagem do Natal. Natal: 21 maio 1961.

22. Conceição AM. Entrevista concedida a Djailson José Delgado Carlos. Natal; 2005 jun. Fita cassete (59 min).

23. Souza MES. Entrevista concedida a Djailson José Delgado Carlos. Natal; 2005 maio. Fita cassete (89 min).

RECEBIDO: 14/04/2008
ACEITO: 29/09/2008

*Artigo extraído da Dissertação de Mestrado intitulada “Passado e Presente: a Enfermagem do Hospital Universitário Onofre Lopes”, desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Enfermagem, na base de Educação em Enfermagem, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal/RN.